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Lula desafia progressistas a combater neoliberalismo e extrema-direita

Em Barcelona, presidente brasileiro defende coerência política e aponta bilionários como culpados por desigualdade global.

19/04/2026 às 10:32
Por: Redação

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva participou, neste sábado (18), em Barcelona, na Espanha, da primeira edição da Mobilização Progressista Global (MPG). Durante o encontro, que reuniu milhares de ativistas e representantes da esquerda mundial, o líder brasileiro defendeu a coerência política dos progressistas e criticou a ascensão da extrema-direita, que se beneficia das falhas do neoliberalismo.

 

O evento MPG tem como propósito unir ativistas e organizações de esquerda de diversas nações para fortalecer a democracia com justiça social e resistir ao avanço das ideologias autoritárias de extrema-direita. A participação de Lula faz parte de sua viagem oficial à Europa.

 

Em seu discurso para uma audiência de mais de cinco mil pessoas, que incluía outros chefes de Estado, o presidente Lula enfatizou a importância de os indivíduos não temerem suas convicções políticas, especialmente no cenário global atual.

 

"Ninguém precisa ter medo, no mundo democrático, de ser o que é, de falar o que precisa falar, desde que se respeite as regras do jogo democrático estabelecidas pela própria sociedade".

 

Lula reconheceu os progressos alcançados pelo campo progressista em favor de grupos sociais como trabalhadores, mulheres, a população negra e a comunidade LGBTQIA+. Contudo, alertou que a esquerda falhou em superar o pensamento econômico dominante, o que abriu espaço para o crescimento de forças reacionárias na sociedade.

 

"O projeto neoliberal prometeu prosperidade e entregou fome, desigualdade e insegurança. Provocou crise atrás de crise. Ainda sim, nós sucumbimos à ortodoxia. Temos sido os gerentes das mazelas do neoliberalismo. Governos de esquerda ganham as eleições com discurso de esquerda e praticam austeridade. Abrem mão de políticas públicas em nome da governabilidade. Nós nos tornamos o sistema. Por isso, não surpreende agora que o outro lado se apresente agora como antissistema", afirmou Lula.

 

O presidente brasileiro salientou que a coerência deve ser o princípio fundamental para os progressistas.

 

"Não podemos nos eleger com um programa e implementar outro. Não podemos trair a confiança do povo, mesmo que boa parte da população não se veja como progressista. Ela quer o que nós propomos. Ela quer comer bem, morar bem, escolas de qualidade, hospitais de qualidade, uma política climática séria e responsável, uma política de meio ambiente à altura. Ela quer um mundo limpo e saudável, um trabalho digno, com jornada de trabalho equilibrada, um salário que permite uma vida confortável", continuou.

 

Lula afirmou que a extrema-direita soube aproveitar o descontentamento gerado pelas promessas não cumpridas do neoliberalismo. Conforme o presidente, essa vertente política direcionou a frustração das pessoas por meio da disseminação de falsidades e discursos de ódio.

 

"Canalizou a frustração das pessoas inventando mentiras e mais mentiras, falando das mulheres, dos negros, da população LGBTQIA+, dos imigrantes, ou seja, todas as pessoas mais necessitadas, que passaram a ser vítimas do discurso de ódio", completou.

 

Antes da MPG, o presidente brasileiro participou da quarta edição do Fórum Democracia Sempre, também em Barcelona, ao lado de outros líderes internacionais. Este fórum foi iniciado em 2024 como uma colaboração entre os governos de Brasil, Espanha, Colômbia, Chile e Uruguai. A reunião em Barcelona foi organizada pelo presidente do Governo da Espanha, Pedro Sánchez, e contou com a presença dos presidentes Yamandú Orsi, do Uruguai; Gustavo Petro, da Colômbia; Ciyril Ramaphosa, da África do Sul; Claudia Sheinbaum, do México; e do ex-presidente do Chile, Gabriel Boric.

 

Dirigindo-se aos ativistas progressistas, Lula declarou que é fundamental identificar os verdadeiros responsáveis pela crise socioeconômica global, que, segundo ele, são os poucos bilionários que detêm a maior parte da riqueza mundial.

 

"Eles querem que as pessoas acreditem que qualquer um pode chegar lá. Alimentam a falácia da meritocracia, mas chutam a escada para que outros não tenham a mesma oportunidade de subir. Pagam menos impostos ou nada, exploram o trabalhador, destroem a natureza, manipulam os algoritmos. A desigualdade não é um fato, é uma escolha política. O que faz de nós progressistas, é escolher a igualdade. Nosso lema deve ser sempre estar ao lado do povo".

 

Críticas aos Conflitos e à Ordem Global

 

Lula reiterou sua crítica aos líderes de países com assento permanente no Conselho de Segurança das Nações Unidas, referindo-se a eles como "senhores da guerra". Ele expressou repúdio aos bilhões de dólares investidos em armamentos, recursos que, em sua visão, poderiam ser direcionados para erradicar a fome, solucionar a crise energética e garantir acesso universal à saúde no planeta.

 

"O Sul Global paga a conta de guerras que não provocou e de mudanças climáticas que não causou. É tratado como quintal das grandes potências, sufocado por tarifas abusivas e dívidas impagáveis. Volta a ser visto como mero fornecedor de matérias-primas. Ser progressista na arena internacional é defender um multilateralismo reformado, defender que a paz faça prevalência sobre a força, é combate a fome e proteger o meio ambiente, é restituir a credibilidade da ONU, que foi corroída pela irresponsabilidade dos membros permanentes", disse.

 

Em outro segmento de seu discurso, o presidente afirmou que a ameaça da extrema-direita transcende a retórica, sendo uma realidade concreta. Ele citou o exemplo do Brasil, onde, segundo suas palavras, essa força política planejou um golpe de Estado.

 

"No Brasil, ela [extrema-direita] planejou um golpe de Estado. Orquestrou uma trama que previa tanques na rua e assassinatos do presidente eleito, do vice-presidente e do presidente da Justiça Eleitoral. O papa Leão XIV disse que a democracia corre o risco de se tornar uma máscara para o domínio das elites econômicas e tecnológicas. Nosso papel é desmascarar essas forças, desmascarar aqueles que dizem estar do lado do povo, mas governam para os mais ricos".

 

O presidente brasileiro ressaltou que a democracia não é um fim em si mesma, mas exige reafirmação diária por meio da melhoria efetiva da vida das pessoas para manter sua credibilidade.

 

"Não é democracia quando um pai não sabe de onde tirar seu próximo de comida. Não há democracia quando um neto perde seu avô na fila de um hospital. Não há democracia quando uma mãe passa horas em um ônibus lotado e não consegue dar um beijo de boa noite nos seus filhos. Não há democracia quando alguém é discriminado pela cor de sua pele, quando uma mulher morre apenas pelo fato de ser mulher. Temos que substituir o desalento pelo sonho, o ódio pela esperança", afirmou.

 

Próximos Compromissos na Europa

 

Após cumprir sua agenda na Espanha, o presidente Lula seguirá para a Alemanha neste domingo (19). No país europeu, ele participará da Hannover Messe, considerada a maior feira de inovação e tecnologia industrial do mundo, que nesta edição presta homenagem ao Brasil. Adicionalmente, o presidente brasileiro terá um encontro com o chanceler Friedrich Merz.

 

A viagem europeia de Lula será concluída em 21 de maio, com uma visita de Estado a Portugal. Em Lisboa, o presidente brasileiro tem reuniões agendadas com o primeiro-ministro Luís Montenegro e com o presidente António José Seguro.

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